quarta-feira, 24 de março de 2010

Onde está o dinheiro?

Entre janeiro de 2003 e janeiro de 2010 a oferta de moeda (M) cresceu incríveis 144,7%. No mesmo período a inflação acumulada (P) do IPCA foi de 45,7%, e o PIB (Q) cresceu aproximadamente 27%. Recorrendo a popular equação MV = PQ, e supondo V sem grandes variações, surge a inevitável pergunta: onde está o dinheiro? A parcela PQ deveria ser corrigida em torno de 33% para manter a igualdade válida. Assumindo que a velocidade de circulação da moeda (V) não se alterou tanto no período, temos aqui um mistério. Cabe ressaltar que caso inovações financeiras aumentem V, então o problema é mais severo ainda.

Assumindo que V não caiu nesse período (o que parece ser uma hipótese altamente plausível), restam três explicações para a controvérsia: 1) o PIB cresceu muito mais do que a contabilidade do IBGE indica; 2) alguns ativos se valorizaram numa magnitude muito superior a sugerida pelos índices de preço; ou 3) existe uma defasagem entre o aumento de moeda e o aumento de preços. No primeiro caso, temos uma medida do crescimento da corrupção ou do mercado informal. Isto é, o PIB do setor informal da economia cresceu o bastante para acomodar o aumento na oferta monetária (sendo que tal aumento da informalidade não foi captado pela metodologia do IBGE). No segundo caso, temos um índicio da presença de bolhas na economia brasileira. O terceiro caso sugere que teremos, em breve, a volta da inflação. Claro que uma combinação dessas três alternativas também é possível.

No caso de bolhas, quais seriam os mercados mais propensos a estarem operando numa bolha? Basta verificarmos quais mercados apresentaram valorização expressiva nos últimos 10 anos. Em termos de valorização, restam poucas dúvidas de que nos últimos 10 anos os mercados de ações e imobiliário foram campeões em rentabilidade. Dessa maneira, são estes os mercados mais propensos a estarem operando sob uma bolha inflacionária. Existe uma boa chance do aumento da oferta monetária (e do crédito) ter inflado os mercados imobiliários e de ações no Brasil. Sendo que tal incremento no preço das ações e das casas, por uma deficiência dos índices de preço, acabaram não se refletindo nas tradicionais medidas de inflação.

O aumento da moeda (M) está escondido em algum mercado no Brasil. Para nossa infelicidade, existem indícios de que o mercado de ações e imobiliário sejam o reduto de parte desse excesso de oferta monetária. Caso isso seja correto, cedo ou tarde, teremos um estouro de bolha nada agradável no Brasil.

9 comentários:

Pedro H. Albuquerque disse...

Uma possibilidade Adolfo que você não considerou é que a redução dos juros nominais durante o período podem ter causado uma redução substancial da velocidade de circulação da moeda, justificando assim o aumento da oferta monetária. O seu ponto principal porém permanece inalterado: o crescimento rápido da oferta monetária, acompanhado de uma redução rápida da taxa Selic, é provavelmente um fator importante por trás a explosão dos preços de ativos no Brasil.

Anônimo disse...

"O Câmbio e o Tango Chinês (Valor Econômico, 25/03/2010)"

Professor,

Pode comentar esse artigo?

Anônimo disse...

Observando o que tem acontecido com os gastos do governo nos últimos dois ou três anos, acho que tem sentido o que o o Adolfo escreveu. Pior ainda, é fácil notar que nos últimos sete anos o PIB real cresceu, algo em torno de 27%, enquanto que os gastos reais do governo cresceram mais de 80%. Dadas as características desenvolvimentistas desse go governo (e do próximo?), há uma tendência evidente de descontrole fiscal (lembremos que as receitas não podem aumentar, indefinidamente, pela expansão da carga fiscal, o que indica que a dívida líquida tende a crescer). Como, aparentemente, o banco central não está atuando para coibir tal descontrole via política monetária (dominância fislcal?), é plausível esperar algum tipo de coisa compatível com a desagradável aritmética monetarista de Sargent-Wallace? Dependendo de quem ganhe a eleição de outubro, dá para sentir um frio na espinha.

Anônimo disse...

Adolfo,

Parte do problema vem, acredito, da definição de moeda. Qual é o conceito de moeda que voce está usando? M1? Se for, esqueça porque ele não se ajusta a TQM. Via de regra se usa o M2 ou o M3. Se for isso, então V é tremendamente instável (como o velho Keynes já havia dito ...). Não é por outra razão que BC´s no mundo inteiro deixaram de mirar a oferta de moeda como meta intermediária para controlar a inflação.

Abs,

Oreiro

Augusto Freitas disse...

É impressionante o conhecimento que a candidata do PT a presidência, Dilma Roussef, tem de economia:

"Dilma também discursou: “A gente acha, ao contrário do que ocorria no Brasil, que um país para ser uma grande economia, tem que ter um bom atendimento de saúde. Antes achavam que ou se distribuía renda ou se tinha crescimento econômico. Achavam que era preciso crescer para distribuir o bolo. O que provamos é que, quando se distribui o bolo, é como um fermento. Ele cresce”."

Do blog do Reinaldo Azevedo, em Veja. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo

Anônimo disse...

O que tem de errado no discurso que o comentarista acima faz?

Chutando a Lata disse...

O conceito de moeda não é o ponto. Usando a equação da TQM como uma tautologia, então V tem que se ajustar aos números que o Adolfo falou. Se as magnitudes não fazem sentido, então cabe uma boa pesquisa para detectar qual dos números está errado ou quais estão. O Adolfo faz uma especulação. Claro, tem que aprofundar o argumento levantando informações. Para finalizar, o fato do banco central ter sucesso no combate à inflação pela adoção de políticas que empregam os juros como instrumento de política monetária, só revela que ele está atento aos movimentos da velocidade renda da moeda e da produção agregada. No caso do Brasil, existem uma série de senões da política monetária. O Adolfo cita o do crescimento monetário exagerado. Naturalmente, para o combate inflacionário ser efetivo, no contexto do esquema de metas inflacionárias, isso vai requerer ajustes na taxa de juros, caso os ajustes da produção e da velocidade não se adequem a essas magnitudes monetárias.

Anônimo disse...

Poderia ser também que o IPCA não reflita com fidelidade a desvalorização da moeda e a subida dos preços como um todo.

Leo Romero

Breno Lima disse...

Não estamos acompanhando uma embate velado entre a "Economia Política" e a "Política Econômica"?

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