domingo, 29 de abril de 2018

Tem algo de muito errado escondido no Brasil: já deveríamos estar crescendo a um nível muito mais elevado

Tem algo de muito errado escondido em nosso país. Algo está passando despercebido frente a algumas "boas" notícias relacionadas a economia. Sim, o Brasil saiu da recessão. Sim, o Brasil está crescendo. Contudo, o ritmo do crescimento deveria ser bem mais intenso do que o que está sendo observado.

Vamos supor que a taxa de crescimento de longo prazo do PIB per capita brasileiro esteja ao redor de 1,7% ao ano. Isso implica numa taxa anual de crescimento do PIB ao redor de 2,5%. Em 2014 o PIB cresceu 0,1%, em 2015 caiu 3,8%, em 2016 caiu outros 3,6%, em 2017 cresceu 1%. Em outras palavras, estamos mais de 15% abaixo da trajetória de longo prazo. Num cenário assim, a taxa de crescimento do PIB deveria ser bem mais alta. Notem que número significativo de analistas preveem um crescimento de 2,8% para 2018, e de 3% para 2019. Caso tais valores se confirmem, ao final de 2019 estaríamos ainda abaixo do PIB de 2014, e continuaríamos mais de 15% abaixo de nossa trajetória de longo prazo.

O normal seria a economia brasileira estar se recuperando a taxas bem mais rápidas. Se isso não está ocorrendo é porque algum problema bem sério está sendo desconsiderado nas análises. Será que nossa já baixa taxa de crescimento de longo prazo ficou pior ainda? Será que os desastres microeconômicos da administração petista derrubaram ainda mais nossa já estagnada produtividade? Será que a dívida pública, aliada a nossa péssima situação fiscal, está tendo efeitos deletérios bem mais sérios do que estamos notando?

Tem algo de muito sério acontecendo no subterrâneo de nossa economia que não está recebendo a devida atenção. Em minha opinião, são dois os culpados:

1) o estrago microeconômico das políticas econômicas do PT é bem mais sério do que parece. Tudo leva a crer em severos problemas de má alocação de investimentos (a famosa política de escolha de setores e de campeões levados a cabo pelo BNDES e pelo governo petista). Ao investir em setores pouco capazes de competir (tal como os vultosos investimentos no setor naval ou nas péssimas escolhas de investimentos da Petrobras) não só foram "queimados" importantes recursos, pior que isso: a própria manutenção desse investimento implica em novos e custosos desembolsos. Por exemplo, por pior que tenha sido investir em estádios para a Copa do Mundo, ainda assim foi pior ainda colocar bilhões de reais na Refinaria Abreu e Lima ou no complexo Comperj. Quem poderia imaginar que investir em estádios seria a menos pior das ideias petistas?; e

2) A delicada situação fiscal da União, estados e municípios pode estar assustando bem mais do que os jornais levam a crer. São vários os problemas que nos levam a ter severas dúvidas sobre a sustentabilidade da trajetória fiscal atual.

Em resumo, o Brasil precisa de grandes reformas macroeconômicas e microeconômicas. Reformas que coloquem nossa trajetória fiscal num patamar aceitável. Nesse sentido, a reforma da previdência é um primeiro passo urgente. Mas muito mais precisa ser feito no lado fiscal: revisão das desonerações tributárias, revisão dos subsídios governamentais, ampla política de privatização e concessões, reforma administrativa, e freio no crescimento constante dos gastos públicos, são objetivos a serem perseguidos. Pelo lado da produtividade, temos que aprovar medidas que recoloquem o Brasil no caminho do crescimento sustentável. Nesse sentido, abrir a economia, modernizar a legislação trabalhista, simplificar a tributação, valorização e proteção efetiva da propriedade privada, reduzir drasticamente a burocracia, diminuir o volume do crédito direcionado, aprovar o cadastro positivo, e várias outras medidas precisam ser urgentemente implementadas em nosso país.

4 comentários:

José Edgard disse...

Ótima análise conjuntural.

Alexis Efremides disse...

Excelente leitura da realidade econômica. Me alinho na percepção de que existem mais questões a serem explicadas.

Fernando Pisarro disse...

Já li aqui e ali algumas referencias e críticas às intervenções heterodoxas na condução da economia brasileira nos governos petistas, principalmente nos incentivos ao consumo como antidoto aos efeitos da crise de credito nos mercados internacionais que foram subestimados pelo presidente que os apelidou de "marolinhas" e a determinação de alavancar por intermédio de gigantescos subsídios para alguns privilegiados "amigos do rei" tornarem suas empresas"campeões nacionais" quicá internacionais! As intervenções foram aprofundadas com a Petrobras impedida de reajustar os preços dos combustíveis o que gerou um rombo de mais de 100 bilhões de Reais segundo estudo elaborado pelo Grupo de Economia da Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GEE/UFRJ),que chegou ao montante que o represamento dos preços de 2011 a 2013 representou: um custo de R$ 104 bilhões! A isso se acrescenta mais de 50 bilhões de Reais que é a estimativa do TCU para os prejuízos causados pelos desvios de conduta de vários diretores e altos funcionários com a corrupção e a falta de critérios nas escolhas dos investimentos
Nossa maior empresa com isso teve seu endividamento líquido multiplicado absurdamente pois saltou de R$ 61 bilhões no fim de 2010 para R$ 282 bilhões em dezembro de 2014, e cresceu mais 40% no ano seguinte, terminando 2015 em R$ 393 bilhões – o equivalente a mais de 60 meses de geração de caixa da companhia, mais que o triplo do que ela própria considerava conveniente!

Com a venda de vários ativos como a participação nos campos de produção na Africa e campos do pré-sal – e o alinhamento dos preços domésticos à realidade externa, a nova gestão conseguiu reduzir o endividamento. No balanço mais recente, de setembro de 2017, o valor devido era de R$ 279 bilhões, ou 3,2 vezes a geração de caixa.

O balanço da Petrobras voltou ao azul em 2017, mas com ganhos relativamente tímidos. De janeiro a setembro, a companhia registrou lucro acumulado de R$ 5 bilhões.
Gastaria um enorme espaço para enumerar todas as destrambelhadas e sabemos agora, criminosas intervenções nos rumos da economia brasileira , o que talvez explique parcialmente a advertência deste excelente artigo!

Leonardo Romero disse...

O pior problema microeconômico nao parece solúvel com reformas: a sensação, causada pela militância dos operadores do direito, de que contratos no Brasil existem apenas pro forma e q podem ser descumpridos sem o menor problema. Sem isso a cooperação mutuamente vantajosa fica quase impossível.

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